Que tempos incertos e angustiantes estamos vivendo. A propagação mundial do novo coronavírus alterou vidas em todo o planeta. Até coisas simples que normalmente consideramos naturais agora parecem surreais. Quando meu marido e eu saímos para nossa ida semanal ao supermercado, não consegui afastar a sensação perturbadora provocada pelas prateleiras vazias. Naturalmente, não havia sequer um rolo de papel higiênico, e nem nos demos ao trabalho de procurar frascos de álcool em gel.

A esta altura, muitos de nós já lemos histórias sobre quem inventou o álcool em gel para as mãos, mas eu não conhecia a narrativa até ser procurada por uma repórter, cerca de dez dias atrás. A história começa em Bakersfield, Califórnia, em 1966, quando uma jovem estudante latina de enfermagem chamada Lupe Hernandez teria encontrado uma maneira de fornecer uma solução desinfetante à base de álcool em forma de gel. Desde que a repórter entrou em contato comigo, vi essa história pelo menos uma dúzia de vezes em diversos veículos de notícias, blogs e redes sociais, associada à hashtag #lupehernandez.

A fonte mais comumente citada é uma reportagem publicada em 2012 no jornal britânico The Guardian. Um trecho afirma: “Em 1966, uma estudante de enfermagem chamada Lupe Hernandez teria sido a primeira a imaginar a ideia de um antisséptico para as mãos. Segundo a história, Hernandez percebeu que o álcool aplicado por meio de um gel poderia limpar as mãos numa situação sem acesso a sabonete e água morna. Reconhecendo o potencial comercial da ideia, telefonou para um serviço de invenções do qual havia ouvido falar na televisão e iniciou o processo de registro da patente”.

A repórter queria saber se a história era verdadeira.

Não é incomum que o Lemelson Center receba pedidos desse tipo. Existe muita informação incompleta, mal interpretada ou, francamente, errada na internet e em materiais impressos sobre a história das invenções e dos inventores, do passado e do presente. Uma narrativa incorreta publicada por uma fonte confiável costuma ser reproduzida por outros, sem pesquisas adicionais. Tentamos encontrar os fatos e contar as histórias com a maior precisão possível, compreendendo que nós também podemos precisar rever nossa descrição do trabalho de um inventor à medida que novas informações surgem. Para falar a verdade, realizar esse tipo de “trabalho de detetive” é um dos pontos altos da profissão de historiador.

A investigação nos registros de patentes

Comecei, portanto, procurando uma patente concedida a Lupe Hernandez, inclusive com várias formas diferentes do nome, mas não encontrei nenhuma. Descobri patentes de antissépticos para as mãos aproximadamente da mesma época, mas elas abrangiam aparelhos nos quais as pessoas colocavam as mãos para higienizá-las. Lincoln L. Stevenson, por exemplo, recebeu a patente norte-americana nº 2.814.081 por um “Higienizador Rápido de Mãos”, descrito por ele como “um dispositivo para tornar as mãos higienizadas de maneira rápida e eficiente”.

Stevenson tinha como público principal o setor de alimentação. Observou: “É uma constatação cotidiana que pessoas que manipulam alimentos e produtos semelhantes em público, como em balcões de lanchonetes, farmácias etc., frequentemente recolhem objetos do chão, tocam os cabelos e sujam as mãos de outras maneiras, para logo em seguida pegar e manipular alimentos ou outros suprimentos. Isso é insalubre e desagradável para os clientes”. Destacou os obstáculos à lavagem das mãos, afirmando que “normalmente não é conveniente nem prático instalar o encanamento necessário para essas instalações em um local acessível, de modo que ainda mais tempo e passos seriam desperdiçados para ir até a pia e voltar. Com clientes impacientes esperando atendimento, a tentação de deixar de lavar as mãos é muito grande”.

Sua solução foi inventar algo “que os funcionários pudessem ser facilmente persuadidos a usar tantas vezes quantas fossem necessárias” e “que não exigisse ligação com encanamento e fosse inteiramente fechado, de modo que não houvesse risco de respingar em outros objetos nem de ser contaminado por eles”. O higienizador de Stevenson tinha a forma de uma caixa de vidro com duas aberturas na parte frontal, pelas quais o usuário introduzia as mãos. Dentro da caixa, elas eram submetidas a “um dispositivo elétrico de pulverização fina e um soprador-secador de ar quente” para limpeza. O líquido pulverizado seria uma “mistura contendo lanolina, álcool etílico puro, perfume e, possivelmente, uma pequena quantidade de desinfetante adicional, se necessário”. Todo o processo deveria levar “pouquíssimos segundos”.

Da mesma forma, a patente norte-americana nº 3.220.424 foi concedida a Warren W. Nelson em 1965 por um “Higienizador de Mãos”. Nelson observou: “Um dos problemas mais graves de higiene diz respeito à necessidade de meios simples, econômicos e eficientes para garantir que funcionários de cozinha, auxiliares hospitalares e médicos etc. limpem suficientemente as mãos”. Sua invenção consistia numa caixa com abertura para que o usuário introduzisse as mãos “abertas e estendidas, expondo substancialmente toda a superfície da pele ao líquido higienizante contido no recipiente”. A “imersão completa das mãos da pessoa no líquido higienizante”, regulada por “um temporizador elétrico e ajustável”, proporcionava a desinfecção necessária.

Embora essas invenções fossem realmente higienizadores de mãos, não correspondiam ao alvo da minha pesquisa. Até então, não havia identificado patentes concedidas a Lupe Hernandez nem para um higienizador em forma de gel. É certo que a ideia e a química por trás dos antissépticos para mãos existem há algum tempo; aqui está uma pequena amostra de patentes de diferentes germicidas e produtos semelhantes:

Wendell H. Tisdale e Ira Williams, patente norte-americana nº 1.972.961, “Desinfetante”, de 1934, descreve “métodos e meios de controlar e prevenir o crescimento de fungos e micróbios”.

William C. Moore, patente norte-americana nº 2.054.989, “Composições para Aplicação na Pele”, de 1936, referente a “um novo tipo de composição predominantemente alcoólica para aplicação na pele humana”. Essa patente é particularmente interessante porque Moore menciona que “há muito tempo se sabe que é possível fabricar ‘alcogéis’”. De fato, a patente norte-americana nº 899.875, concedida a Hans Kuzel em 1908, menciona especificamente “alcogéis”. A nova forma de álcool “não líquido” de Moore, entretanto, não se destinava à higiene das mãos, mas a funcionar como uma preparação de álcool para fricção, mais fácil de aplicar em massagens e outros usos terapêuticos.

Lucas P. Kyrides, patente norte-americana nº 2.246.524, “Germicida”, de 1941, descreve compostos “eminentemente adequados para lavar tecidos, artigos de borracha, paredes e pisos e especialmente para lavar mãos e pele”.

Encontrei patentes posteriores para antissépticos em gel, entre elas a patente norte-americana nº 4.956.170, concedida a Andrew S. Lee em 1990 por “Géis Alcoólicos Antimicrobianos Hidratantes/Condicionadores da Pele”. Mas nada de meados da década de 1960. Parecia que a parte da história referente à patente poderia estar equivocada.

Quem era Lupe Hernandez?

E talvez a identificação de Hernandez como mulher também estivesse errada. Outros artigos se referiam a Lupe Hernandez como homem. Eu poderia ao menos confirmar essa parte da história? Pesquisei listas de moradores e outras bases de dados, mas, sem mais informações, não encontrei nada conclusivo: Lupe Hernandez é um nome comum demais. Pensei que talvez tivesse encontrado uma pista ao ler o obituário de Lupe G. Hernandez, mulher nascida em 1949 — a idade possivelmente combinaria com a história — e falecida em Torrance, Califórnia, em 2007. Alguém havia deixado uma mensagem no livro virtual de condolências: “Obrigado pelo antisséptico de mãos. Ele ajuda muita gente a ficar livre de germes!”. A mensagem, porém, havia sido escrita em 2019, doze anos depois. Isso me pareceu um tanto suspeito.

Continuei pesquisando e encontrei uma nota no Answers.com, supostamente escrita por Hernandez e publicada em 2012 em resposta à pergunta: “Lupe H Hernandez, inventor do antisséptico para mãos, ainda está vivo?”. O que segue é uma tradução direta da mensagem publicada no Answers.com:

Sim, e é homem. Entreguei minha ideia ao diretor executivo de uma empresa de ideias e ainda estou esperando o reconhecimento. Posso provar que foi minha ideia, pela maneira como a expliquei e como ela é feita.

Eu estava na faculdade e pensei numa maneira de acelerar o trabalho nos hospitais, matar germes e ajudar a manter uma boa higiene. A história de uma mulher está errada para favorecer ganhos corporativos, mas tudo bem, porque sei qual foi minha participação em todo aquele desenvolvimento.

Lupe Hernandez, Bakersfield, Califórnia, 93313.

Eu finalmente havia encontrado a verdade? Lupe Hernandez era um homem, que ainda morava em Bakersfield oito anos antes e nunca havia patenteado a invenção nem, presumivelmente, lucrado com ela? Ainda tenho dúvidas. A “isenção de responsabilidade geral” do Answers.com começa dizendo que “não há garantia de validade” das informações publicadas no site, por isso não posso afirmar com qualquer grau de certeza que o texto acima seja correto ou sequer tenha sido escrito por Hernandez.

Lamento não ter conseguido dar à repórter — ou a mim mesma — uma resposta definitiva, pelo menos por enquanto. Continuarei procurando. Se alguém que estiver lendo tiver outras informações sobre Lupe Hernandez e a invenção do antisséptico para as mãos, por favor nos informe, usando o recurso de comentários do Facebook nesta página ou entrando em contato com o Lemelson Center.

Enquanto isso, mantenham-se seguros, fiquem em casa, cuidem da saúde e lavem as mãos com frequência... ou usem antisséptico para as mãos, caso consigam encontrá-lo.

Atualização de 26 de março de 2020

Bethany Rice, curadora do Kern County Museum, em Bakersfield, leu nosso blog e nos informou sobre sua pesquisa a respeito de Lupe Hernandez. Reproduzimos sua mensagem, com autorização e agradecimento:

Boa tarde,

Sou curadora do Kern County Museum, localizado em Bakersfield, Califórnia. Também fui procurada várias vezes a respeito da história de Lupe Hernandez e da invenção do antisséptico para mãos. Entretanto, assim como vocês, não encontrei nenhuma evidência que confirme que ele ou ela tenha existido.

Entrei em contato com o Bakersfield College, onde ela (ou ele?) possivelmente estudou enfermagem, mas até agora não encontrei nenhuma evidência dessa pessoa nos anuários. Nem eu nem um voluntário do museu conseguimos encontrar evidências nos jornais.

Queria entrar em contato para dizer também quanto apreciei seu artigo sobre o assunto. A matéria do Guardian, e as menções posteriores em diversos formatos, foi amplamente compartilhada em nossa comunidade. Por fim, publiquei um vídeo explicando a diferença entre fontes primárias e secundárias. Se houver interesse, incluí uma ligação abaixo.

Se você obtiver novas informações sobre o assunto, poderia compartilhá-las com nosso museu? Continuarei investigando por conta própria, é claro. Também entrei em contato com o Guardian e pedi mais informações sobre a origem das fontes. A autora, Laura Barton, ainda escreve para o jornal, então espero receber uma resposta em algum momento.

Mais uma vez, obrigada por ajudar a conter a onda de possível desinformação que circula por aí! Espero ler seus próximos textos.

Atenciosamente, Bethany Rice.

A autora agradece a Donald Tarazano, do Escritório de Patentes e Marcas dos Estados Unidos, pelos comentários feitos sobre o rascunho deste artigo.