Muitas coleções mantidas pelo Archives Center do Museu Nacional de História Americana documentam processos de fabricação do fim do século XIX e começo do XX — motores a vapor, caldeiras, turbinas, rodas-d'água e muito mais. Os fabricantes utilizavam fotografias para documentar seu trabalho, e as imagens eram publicadas em folhetos, panfletos e catálogos, originando o que hoje se conhece como literatura comercial. Os catálogos eram o principal meio pelo qual uma empresa comunicava sua missão e promovia seus produtos, oferecendo uma apresentação visual de suas mercadorias, com diferentes ângulos, detalhes, informações de preços e histórico da companhia. Tinham a intenção de ser temporários e normalmente eram descartados quando se tornavam desatualizados. Afinal, era certo que um catálogo mais recente viria depois.
A ilustração de catálogos começou com gravuras em madeira e em aço, passou à litografia, que deu lugar à cromolitografia, e depois à impressão fotomecânica. Muitos catálogos continham fotografias retocadas com aerógrafo, produzidas por funcionários internos, mas provavelmente eram criadas por uma empresa de publicidade ou arte comercial contratada pelo fabricante para montar e imprimir o catálogo. O aerógrafo era utilizado como “tratamento posterior” em cópias fotográficas e negativos para manipular, modificar e aperfeiçoar a imagem original em preto e branco ou em cores. O departamento de acabamento de um estúdio fotográfico comercial retocava imagens com tinta pulverizada para criar um efeito fosco que as fazia parecer ainda mais nítidas e suaves, elevando-as a um grau de clareza que destacava os detalhes. Essa manipulação, ou retoque, revela quanto o trabalho era importante para garantir a melhor aparência possível dos produtos de uma empresa.
“As fotografias primorosamente acabadas de máquinas, móveis, automóveis e joias vistas nos catálogos dos fabricantes desses produtos representam, infelizmente, não tanto a perfeição dos métodos fotográficos quanto a excelência superior do trabalho com aerógrafo.” — Photo Miniature, março de 1921, p. 3.
“As fotografias primorosamente acabadas de máquinas, móveis, automóveis e joias vistas nos catálogos dos fabricantes desses produtos representam, infelizmente, não tanto a perfeição dos métodos fotográficos quanto a excelência superior do trabalho com aerógrafo.” — Photo Miniature, março de 1921, p. 3.
O aerógrafo passou a ser amplamente utilizado no começo do século XX na preparação de imagens para reprodução. À medida que os custos de impressão diminuíam, combinados ao uso do aerógrafo que economizava tempo, os catálogos eram produzidos com rapidez e maior frequência, originando muitas versões diferentes para públicos dos Estados Unidos e de outros países. A James Leffel and Company, por exemplo, possuía uma série de catálogos que apresentavam suas turbinas hidráulicas, projetados e distribuídos no mercado latino-americano.
O aerógrafo tem seis partes principais: corpo, gatilho, bico, agulha, recipiente de tinta e mangueira de ar, ligada a uma fonte de ar — bomba de pedal ou motorizada. Mas de onde exatamente veio o aerógrafo? Muitos inventores reivindicam sua criação.
Aperfeiçoamentos e uso comercial
O aerógrafo foi inicialmente conhecido como “atomizador” e patenteado em 1876 por Francis Edgar Stanley (1849–1918), fotógrafo, inventor, retratista e empresário. O pedido de patente de Stanley relativo a um aperfeiçoamento de atomizadores (patente norte-americana nº 182.389) afirmava: “Minha invenção se refere a aperfeiçoamentos em atomizadores para que possam ser empregados no acabamento de fotografias em aquarela, nanquim e giz de cera, bem como para todos os tipos de sombreamento nos quais a cor possa ser utilizada em estado líquido. A invenção consiste em inserir um fio ajustável com ponta afiada no tubo de líquido, a fim de regular a quantidade emitida. Uma tampa ou cobertura com bicos removíveis, de aberturas variadas, permite limitar a pulverização a determinada superfície”. Stanley utilizou o atomizador para transformar a tinta em partículas muito finas. Enquanto Stanley se voltava a outros empreendimentos inventivos e inovadores, Leslie Curtis, Abner Peeler, Charles Burdick, Olaus Wold, Henry Thayer e Charles Chandler passaram a integrar o grupo dos aerógrafos. Francis Stanley e seu irmão gêmeo Freelan receberiam 23 patentes, principalmente relacionadas a vapor e automóveis, e se tornariam conhecidos pela Stanley Motor Carriage Company, fabricante do famoso Stanley Steamer.
Leslie L. Curtis (1855–1915), artista de Cape Elizabeth, Maine, inventou em 1881 um atomizador para colorir imagens (patente norte-americana nº 248.579). Seu atomizador utilizava um fole ou bulbo elástico para fornecer o ar que distribuía a tinta.
Abner Peeler (1836–1895), joalheiro e inventor de Iowa, criou em 1882 um “distribuidor de tinta” (patente norte-americana nº 256.852) que “espalhava pigmentos sobre uma superfície”. Peeler transferiu a patente aos irmãos Charles e Liberty Walkup por setecentos dólares. Os Walkup fundaram a Rockford Manufacturing Co. para produzir o novo aerógrafo, mas mudaram o nome para Air Brush Manufacturing Company em 1883. Segundo o obituário de Peeler publicado no Fort Dodge Chronicle em 2 de novembro de 1895, “Embora o senhor Peeler possuísse grande aptidão natural para princípios mecânicos e o gênio da invenção, era totalmente desprovido da capacidade de acumular bens, e por consequência nunca obteve grandes benefícios de suas invenções”. Mais tarde, Peeler dedicou algum tempo ao desenvolvimento de máquinas de escrever. Foi Walkup quem comercializou o aerógrafo com enorme sucesso.
Liberty Walkup (1844–1922) nasceu na cidade de Oregon, Illinois. Cresceu numa fazenda e ingressou no Exército da União em 1862, servindo na Companhia K do 92º Regimento de Infantaria de Illinois. Recebeu baixa desonrosa em 1863. Walkup exerceu muitas atividades — professor, operador de uma fábrica de manteiga e queijo, inventor e empresário — e obteve patentes de aperfeiçoamentos do aerógrafo: Air Pump (patente nº 799.695), em 1905; Air Brush (patente nº 817.819), também em 1905; e Air Brush (patente nº 1.191.751), em 1916. Esses aperfeiçoamentos permitiam controlar o ar e a tinta com um único gatilho. Casou-se com Phoebe C. Johnson, artista que mais tarde fundaria, em 1888, a Illinois Art School para ensinar aos alunos a técnica do aerógrafo.
Em 1891, a Air Brush Manufacturing Co. começou a publicar uma revista trimestral, a Air Brush Journal, dedicada aos interesses dos artistas que utilizavam o instrumento. A Air Brush Manufacturing Company anunciava o aparelho como uma maneira de melhorar projetos e poupar tempo e esforço no acabamento, afirmando que “nenhum estabelecimento está completo sem o Air Brush”. Também alertava os possíveis clientes contra imitações: “Os tubarões estão no mercado com seus instrumentos inferiores. O único verdadeiro é fabricado em Rockford, Illinois”.
O impacto na produção de imagens
Um dos concorrentes de Walkup era Charles L. Burdick (1861–1949), artista de Albion, Wisconsin, que patenteou dois aerógrafos (patentes norte-americanas nº 472.157 e nº 472.158) em 1892 e fundou em Londres a Fountain Brush Company, mais tarde conhecida como Aerograph Company, para promover seu instrumento. O aerógrafo de Burdick, semelhante a um lápis ou caneta, foi exposto no Pavilhão de Manufaturas e Artes Liberais da Exposição Universal de Chicago de 1893 pela Thayer and Chandler Art Supply Company. O aerógrafo da Air Brush Manufacturing Company de Liberty Walkup também estava em exibição na feira.
Chicago ficou conhecida pelos aerógrafos, concentrando pessoas e empresas importantes no setor, entre elas Olaus C. Wold (1861–1947), imigrante norueguês que trabalhou para a Thayer and Chandler, empresa fornecedora de artigos de artes e artesanato fundada em Chicago pelo norueguês Henry Thayer e pelo inglês Charles Chandler. Wold projetou aerógrafos em 1901 (patente norte-americana nº 767.510) e fundou a Wold Air Brush Company. Mais tarde, vendeu metade de sua participação a Jens A. Paasche (1880–1969), compatriota norueguês que fundou a Paasche Brothers em Chicago em 1904.
O concorrido negócio dos aerógrafos estimulou uma concorrência propícia a disputas por violação de patentes e marcas registradas. A Air Brush Manufacturing Co., de Walkup, processou a concorrente Thayer and Chandler Co., alegando violação de marca no uso do nome “Air Brush”. O Tribunal Federal de Circuito de Illinois decidiu, porém, que a expressão “air brush” era genérica e, no contexto da patente, designava uma categoria de produtos. O predomínio de Liberty Walkup diminuiu, e sua empresa foi dissolvida. Wold, Paasche e Thayer and Chandler estavam prontos para ocupar o espaço. Hoje, o aerógrafo continua sendo utilizado na fotografia, na indústria automobilística, na pintura de unhas e até em salões de bronzeamento.
Pesquisadores interessados em literatura comercial encontrarão muitos exemplos nas coleções do Archives Center e na Coleção de Literatura Comercial das Bibliotecas do Smithsonian, mantidas no Museu Nacional de História Americana.