No Spark!Lab, acreditamos no poder da brincadeira para liberar a inovação. Embora o velho ditado segundo o qual “a necessidade é a mãe da invenção” possa ser verdadeiro, a história também mostra que o desejo de tornar a vida mais divertida, empolgante ou prazerosa levou a muitas invenções. Essas inovações inspiradas pelo lazer frequentemente exercem impactos que vão muito além das atividades aparentemente triviais que lhes deram origem.
Veja, por exemplo, o celuloide — o primeiro plástico sintético comercialmente bem-sucedido. Um século e meio depois de sua invenção, o plástico sintético é um material onipresente em nossa vida cotidiana. Por mais surpreendente que pareça, devemos em parte à popularidade do bilhar esse componente fundamental do mundo moderno.
“Bilhar na cabeça”
Embora hoje frequentemente usemos os nomes como sinônimos, o bilhar do século XIX diferia do jogo que chamamos de pool. O bilhar abrangia uma variedade de jogos com tacos, alguns disputados em mesas com caçapas e outros sem elas. Uma versão popular exigia apenas três bolas: uma branca para cada jogador e uma vermelha de impacto. O jogador marcava pontos usando o taco e a própria bola para fazer a vermelha atingir a bola do adversário. As mesas não tinham caçapas; em vez disso, amortecedores especiais, chamados “tabelas”, cercavam a área de jogo. Os participantes utilizavam as tabelas para executar jogadas elaboradas por ricochete, e as tacadas mais difíceis valiam mais pontos.
A popularidade do bilhar cresceu rapidamente no século XIX. À medida que as cidades se expandiam, aumentava também o número de salões de bilhar onde os moradores urbanos aprendiam e praticavam o jogo. Alguns jogadores habilidosos conquistaram fama e fortuna, e jornais publicavam relatos detalhados de partidas com grandes apostas. Em 1859, uma multidão em Detroit supostamente assistiu Michael Phelan, famoso jogador e divulgador do bilhar, durante quase dez horas seguidas — das 19h30 às 5h da manhã seguinte. Alguns anos depois, dois compositores captaram a empolgação popular pelo jogo numa canção intitulada Billiards on the Brain (“Bilhar na cabeça”).
Em meio à febre do bilhar, jogadores e empresários introduziram diversas melhorias no equipamento, incluindo tacos com pontas de couro e vários tipos de tabelas de borracha. Mas um elemento essencial permaneceu inalterado: a bola de bilhar de marfim.
Phelan descreveu o exemplar ideal no livro The Game of Billiards, de 1858: “As bolas devem ter tamanho uniforme [...] Aquelas com duas polegadas e três oitavos de diâmetro, se feitas do melhor marfim das Índias Orientais, com grão compacto e devidamente curado, terão peso médio de sete onças cada e serão as mais adequadas ao jogo”. “Cura” referia-se ao processo de secagem. Depois que caçadores matavam os elefantes, retiravam as presas e as enviavam ao exterior, a matéria-prima permanecia nos armazéns durante um longo período de secagem. Quando estava pronta, mestres torneiros de marfim transformavam as presas em bolas de bilhar perfeitamente dimensionadas, que passavam por uma nova cura. Bolas feitas de marfim mal curado rachavam ou sofriam danos com os impactos.
O marfim proporcionava às bolas o peso, o rolamento e o ricochete adequados ao jogo. Entretanto, como lamentava Phelan, o material era “terrivelmente caro”. Uma presa média de elefante fornecia marfim suficiente para apenas quatro ou cinco bolas de bilhar de boa qualidade. Empresários como Phelan temiam que a demanda por esse material caro e caprichoso superasse a quantidade de elefantes disponível. Ele acreditava que, “se algum gênio inventivo descobrisse um substituto para o marfim com as qualidades que o tornam valioso para o jogador de bilhar, faria uma bela fortuna para si e mereceria nossa mais sincera gratidão”.
Inventando imitações
Segundo a história frequentemente repetida, em 1863 o próprio Phelan ofereceu essa “bela fortuna”. Sua empresa, Phelan & Collender, anunciou uma recompensa de 10 mil dólares por um substituto adequado ao marfim. Um jovem impressor com inclinação para inventar, John Wesley Hyatt, viu o anúncio do concurso. Sua persistência em responder ao desafio acabaria abrindo as comportas para os produtos de consumo feitos de plástico sintético.
Hyatt patenteou a primeira tentativa em 1865. Na patente norte-americana nº 50.359, descreveu uma bola composta de um núcleo de fibra de madeira coberto por uma mistura de goma-laca e pó de marfim. A nova bola fracassou, pois os jogadores consideravam que lhe faltavam a dureza e a “sensação” do verdadeiro marfim.
A ideia seguinte de Hyatt surgiu em 1868, quando encontrou um frasco de colódio que havia caído em seu escritório de impressão. Os impressores utilizavam a substância para revestir as pontas dos dedos e evitar queimaduras ao tocar caracteres tipográficos de chumbo aquecido. O líquido derramado havia endurecido, formando um sólido transparente e resistente. Hyatt pensou que o colódio talvez fosse um revestimento melhor para suas bolas de bilhar compostas.
A descoberta acidental do colódio endurecido se encaixa perfeitamente no clichê das descobertas fortuitas tão frequente nas histórias de invenções. O trabalho de Hyatt, porém, não terminou num clássico momento de “Eureca!”. Sua história nos lembra que inventar é um processo.
Hyatt tentou produzir uma bola revestida de colódio, mas encontrou repetidos fracassos. Sem desistir, voltou a atenção para um dos principais ingredientes do colódio, o nitrato de celulose. A celulose altamente nitrada, também conhecida como algodão-pólvora, é extremamente inflamável — e até explosiva. Hyatt, que não tinha formação acadêmica em química, passou um ano perigoso experimentando com o material num galpão atrás de sua casa. Por fim descobriu que uma preparação específica de algodão-pólvora misturada com óleo de cânfora resultava num material resistente e leve, que podia ser moldado em quase qualquer formato e tingido de qualquer cor. Patenteou sua “composição”, chamando-a de “um bom substituto do marfim na fabricação de bolas de bilhar e bolas ou artigos de diversas descrições nos quais se deseja obter resistência, dureza e elasticidade”. Pouco depois, Hyatt e o irmão registraram o nome “celuloide” e fundaram a Albany Billiard Ball Company para vender o produto.
As bolas de celuloide receberam avaliações divergentes. Uma reportagem de 1872 do New York Times afirmava que elas “quase não podiam ser distinguidas das bolas de marfim”, apesar de “custarem cerca de metade do preço normalmente cobrado pelas bolas de marfim”. Até “homens como PHELAN e COLLENDAR [sic], de Nova York, não conseguiram deixar de testemunhar a seu favor”. Já em 1895, outro autor insistia que “nada havia sido encontrado que se igualasse ao marfim nas bolas de bilhar”.
Hyatt refletiu posteriormente sobre alguns defeitos das bolas: “Encostar um charuto aceso provocava imediatamente uma chama considerável e, ocasionalmente, o choque violento entre as bolas produzia uma pequena explosão, como a espoleta de percussão de uma arma”. Ele recebeu “uma carta do proprietário de um salão de bilhar no Colorado mencionando o fato e dizendo que não se importava muito com isso, mas que, no mesmo instante, todos os homens do salão sacaram uma arma”.
Além do bilhar
Apesar de seu desempenho contraditório como material para bolas de bilhar, o celuloide deu origem a uma enxurrada de outros produtos de consumo. A empresa de Hyatt enfatizava a capacidade do celuloide de reduzir a dependência humana dos recursos naturais e seu impacto sobre eles. Um folheto promocional declarava: “Assim como o petróleo veio em socorro da baleia”, também “o celuloide deu ao elefante, à tartaruga e ao inseto coralíneo uma trégua em seus habitats naturais; e não será mais necessário vasculhar a Terra em busca de substâncias que se tornam cada vez mais escassas”. A possibilidade de tingir o celuloide de qualquer cor democratizou materiais raros e caros por meio da imitação. Os fabricantes passaram a produzir fechos de espartilhos, colarinhos, punhos, pentes, cabos de escova, botões, teclas de piano e armações de óculos feitos de celuloide. Na década de 1880, o material serviu de base ao filme fotográfico e, mais tarde, aos primeiros filmes cinematográficos. Quem imaginaria que a invenção do cinema dependeria de inovações no bilhar?
Versões posteriores de plásticos sintéticos substituíram gradualmente o celuloide na maioria de suas aplicações. Atualmente, bolas de pingue-pongue estão entre os poucos produtos de celuloide ainda disponíveis no mercado. Embora seu uso presente seja limitado, o legado do celuloide é enorme: foi o primeiro da onda de plásticos sintéticos que definiu grande parte do trabalho e do lazer dos norte-americanos dos séculos XX e XXI.