Introdução

Você sabia que Alexander Graham Bell nasceu na Escócia? Ele é apenas um exemplo de inventor nascido fora dos Estados Unidos que buscou oportunidades no país.

As contribuições dos inventores imigrantes para a economia e a sociedade norte-americanas são bem documentadas. Em 2017, pesquisadores da Harvard Business School constataram que áreas tecnológicas nas quais inventores imigrantes estavam presentes entre 1880 e 1940 registraram mais patentes e citações entre 1940 e 2000. Pesquisadores da Universidade Stanford publicaram dados em 2018 mostrando que os imigrantes representavam 16% dos inventores norte-americanos entre 1976 e 2012. Eles também atribuíram aos imigrantes cerca de 23% de toda a inovação.

Um relatório do Aspen Institute de 2019 corroborou esses resultados. Segundo o documento, a imigração impulsiona a inovação porque amplia e diversifica o mercado de talentos e apresenta maneiras diferentes de pensar e resolver problemas. Inovar exige um ambiente favorável ao risco, e muitos imigrantes já demonstraram disposição para arriscar ao mudar de país, frequentemente sem conhecer o idioma local.

As histórias reunidas aqui, extraídas dos acervos do Museu Nacional de História Americana, testemunham a criatividade e a determinação de inventores imigrantes ao longo de mais de um século. Durante 2021, muitos objetos apresentados neste conjunto podiam ser vistos na galeria Inventive Minds, no Lemelson Hall of Invention, no primeiro andar da ala oeste do museu.

Argentina: Manoel de la Peña

Pouco se sabe sobre a vida de Manoel de la Peña. Sua patente de 1870 para uma máquina de composição tipográfica informa que ele morava em Nova York, mas era cidadão argentino.

O modelo da invenção foi apresentado com o pedido de patente. O dispositivo permitia que o compositor pressionasse uma tecla para liberar um tipo de metal. A gravidade fazia a peça percorrer guias verticais até formar uma linha de caracteres que podia receber tinta e ser impressa numa prensa.

Bélgica: Leo Baekeland

Leo Baekeland (1863–1944) nasceu na Bélgica. Estudou química na Universidade de Ghent, onde obteve o doutorado antes de chegar aos Estados Unidos em 1889.

Sua primeira invenção bem-sucedida foi um papel fotográfico chamado Velox, que podia ser revelado sob luz artificial. Baekeland vendeu os direitos para a Kodak e investiu o dinheiro em seu próprio laboratório.

Em 1907, experimentos com fenol e formaldeído produziram o primeiro plástico completamente sintético, chamado baquelite. Fácil de moldar, muito resistente e extremamente versátil, ela recebeu o apelido de “material de mil utilidades” e foi empregada em isoladores elétricos, telefones, joias e muitos outros objetos.

Um recipiente de pressão a vapor usado por Baekeland por volta de 1909 permitia produzir baquelite em escala comercial por meio da reação de fenol e formaldeído sob pressão e altas temperaturas. O aparelho, chamado “Bakelizer”, faz parte do acervo do Museu Nacional de História Americana e ainda funciona. Mede aproximadamente 89 centímetros de largura, 102 de profundidade e 183 de altura.

França: Michael Bouchet

Michael Bouchet (1827–1903) era um padre católico nascido na França que imigrou para os Estados Unidos em 1853. Além de uma carreira eclesiástica respeitada — tornou-se monsenhor em 1899 —, cultivou o interesse pela mecânica. Descrito por um contemporâneo como alguém que pensava incessantemente, imaginou cobras automáticas para assustar acólitos e construiu para uso próprio uma cama dobrável e uma saída de emergência contra incêndios.

A partir da década de 1860, Bouchet criou máquinas de somar para facilitar a contabilidade de sua diocese. Patenteou apenas versões posteriores, entre elas a de 1885. A máquina somava colunas únicas de números e, segundo o documento de patente, pretendia ser barata, durável, confiável e pouco sujeita a defeitos.

A curadora Peggy Kidwell explicou seu funcionamento: ao pressionar uma tecla, uma alavanca descia e elevava uma barra curva com dentes internos. Esses dentes engatavam num pinhão na parte traseira da máquina, girando-o de acordo com o algarismo digitado. Uma roda à esquerda do cilindro avançava, registrando o valor. Um trinquete e uma mola então desligavam a barra curva, impedindo que cilindro e mecanismo registrador voltassem para trás ao soltar a tecla.

Outras duas rodas à esquerda da primeira efetuavam o transporte para as casas das dezenas e centenas, permitindo registrar totais de até 99. Mais à esquerda havia um mecanismo de zeragem acionado por alavanca, cremalheira e pinhão.

Alemanha: Charles (Karl) Nessler

Charles (Karl) Nessler (1872–1951) nasceu na Alemanha e criou em Londres a bem-sucedida empresa de produtos capilares C. Nestle Co. Antes de apresentar, em 1905, sua máquina revolucionária para ondular os cabelos permanentemente, ele já havia inventado cílios e sobrancelhas artificiais.

Em vez de modelar cabelos lisos com ferros quentes — efeito que desaparecia na lavagem —, a invenção de Nessler aquecia mechas embebidas em solução química e enroladas em hastes. As ondas resultantes resistiam à lavagem.

Na Primeira Guerra Mundial, o Reino Unido confiscou os bens de cidadãos de países inimigos. Nessler fugiu para os Estados Unidos em 1915 e reconstruiu seus negócios. Seu sucesso culminou numa fusão que deu origem à Nestle-LeMur Co. em 1928. O aparelho preservado pelo museu representa uma das patentes transferidas para a empresa e constitui uma variante do equipamento original de Nessler.

Alemanha: Charlotte Cramer Sachs

Charlotte Cramer Sachs (1907–2004) nasceu na Alemanha e mudou-se para os Estados Unidos em 1924. Seus talentos criativos abrangiam artes, idiomas, música e invenções. Em 1940, recebeu sua primeira patente, nº 2.208.498, por uma chave combinada com lanterna.

Mãe solteira e trabalhadora durante a Segunda Guerra Mundial, Sachs conhecia as exigências enfrentadas pelo número crescente de mulheres que trabalhavam fora de casa. Sua linha de misturas instantâneas para bolos e muffins economizava tempo e ajudava a amenizar as restrições alimentares da guerra. O nome escolhido para a empresa, Joy Products, expressava o prazer que sentia em inventar.

Sachs continuou inventando ao longo de sua extensa vida. No início da década de 1950, projetou acessórios para animais, incluindo “Watch-Dog”, uma coleira com relógio. Para apreciadores de vinho, criou a “Modern Wine Cellar”, destinada a armazenar garrafas na temperatura e umidade adequadas, e o “Bottle Bib”, projetado para evitar pingos.

Hungria: Charles (Károly) Eisler

Charles (Károly) Eisler (1884–1973) nasceu na Hungria, estudou e trabalhou na Alemanha e chegou a Nova York em 1904. Retornou à Hungria em 1912, mas voltou aos Estados Unidos em 1914.

Quando a Westinghouse comprou a pequena empresa na qual trabalhava, Eisler perdeu o emprego e passou a entender como grandes fabricantes elétricos — General Electric, Westinghouse e RCA — pressionavam os concorrentes menores. Em parte para enfrentar esse monopólio, fundou a Eisler Engineering em Newark, Nova Jersey, em 1920.

Sua empresa produzia equipamentos para fabricar diversos tipos de lâmpada, válvulas de rádio e televisão, máquinas de soldagem e instrumentos de laboratório. O prefácio do catálogo de 1924 afirmava que o diretor técnico Charles Eisler havia projetado, desenvolvido e construído mais máquinas automáticas para fabricar lâmpadas do que qualquer outra pessoa.

Eisler também participou ativamente da comunidade húngara de Newark e doou equipamentos, roupas e dinheiro a organizações de apoio aos húngaros nos Estados Unidos e na Hungria.

Irlanda: David McConnell Smyth

David McConnell Smyth (1833–1907) nasceu no território que hoje corresponde à Irlanda do Norte. Sua família mudou-se para os Estados Unidos em 1835. Ele se tornou um inventor prolífico. Segundo a curadora Joan Boudreau, recebeu patentes de aproximadamente quarenta invenções relacionadas a costura de roupas e livros, além de máquinas de mineração e irrigação.

Smyth ficou especialmente conhecido por equipamentos de encadernação. Suas invenções tiveram tanta influência que seu nome permaneceu associado à expressão Smyth sewn ou Smyth sewing, aplicada ao método de costurar com uma linha única cadernos dobrados, reunidos e ordenados, passando a costura pelas dobras de cada um. Suas criações inspiraram, na década de 1880, a fundação da Smyth Manufacturing Company, em Hartford, Connecticut, que fabricou essas máquinas comercialmente.

Os modelos conservados pelo Museu Nacional de História Americana acompanharam pedidos de patente de máquinas que costuravam conjuntos dobrados de páginas, chamados cadernos, antes da colocação da capa.

México: Victor Ochoa

Victor Ochoa (1850–1945?) nasceu no México e tornou-se cidadão norte-americano em 1889. Foi revolucionário, jornalista, minerador, aviador, empresário, detento da penitenciária federal de Leavenworth, amigo do presidente Theodore Roosevelt e, por algum tempo, um suposto morto: simulou sua própria morte para fugir de uma recompensa de 50 mil dólares.

Também foi inventor. Suas criações eram tão variadas quanto sua trajetória: uma chave ajustável, freios magnéticos, um gerador de eletricidade movido a vento, uma caneta-tinteiro, um motor reversível e o Ochoaplane, avião de asas dobráveis.

Polônia: Semi Joseph Begun

Semi Joseph Begun (1905–1995) nasceu no território que hoje é a Polônia. Concluiu o doutorado na Alemanha em 1933, imigrou para os Estados Unidos em 1935 e ingressou na Brush Development Co., em Cleveland, em 1938.

Foi pioneiro na gravação magnética de som e projetou equipamentos que gravavam em fio metálico durante a Segunda Guerra Mundial. No fim da década de 1940, inventou o aparelho de ditado para escritórios “Mail-A-Voice”. Ao contrário dos gravadores de fita em bobinas, o equipamento registrava a voz em discos planos de papel ou plástico, que podiam ser dobrados e enviados num envelope comercial comum. Begun usava o gravador para mandar cartas sonoras à mãe.

Em fevereiro de 1946, uma publicação da Brush anunciou a chegada das tecnologias de gravação ao mercado doméstico. Begun, responsável por grande parte do desenvolvimento de gravação magnética da empresa, declarou que o meio de gravação em fita de papel e o gravador doméstico de alta fidelidade da Brush possibilitavam, pela primeira vez, que uma pessoa comum fizesse gravações caseiras com qualidade satisfatória, sem exigir mais habilidade do que ligar um rádio ou aspirador de pó.

Rússia: Ida e William Rosenthal

Ida Kaganovich (1886–1973) e William Rosenthal (1882–1958) nasceram na Rússia e se conheceram como participantes de protestos contra o czar. Imigraram para os Estados Unidos em 1905 e casaram-se em 1906.

Costureira habilidosa, Ida não apreciava as linhas simples e o caimento folgado das roupas femininas que estavam na moda na década de 1920. Ela e sua sócia Enid Bissett projetaram um sutiã que dava forma mais natural às clientes de suas confecções sofisticadas. As peças fizeram sucesso, e Ida, Enid e William fundaram em 1922 a empresa que viria a se chamar Maidenform.

Na década de 1930, Enid já havia se aposentado, e Ida e William administravam a empresa. Ida cuidava das vendas e finanças, enquanto William fazia os desenhos. A Maidenform permaneceu com a família Rosenthal até 1997. Refletindo o compromisso de Ida com a forma natural do corpo feminino, a patente norte-americana nº 1.648.464, concedida a William em 1927, declarava que o projeto sustentava o busto na posição natural, ao contrário dos antigos sutiãs que o achatavam.

A Maidenform publicou catálogos de estilos para orientar compradores das lojas a escolher mercadorias e fazer pedidos. Cada volume incluía os modelos disponíveis na estação ou naquele ano, preços de atacado e varejo, cores e tamanhos.

A primeira fábrica ficava em Bayonne, Nova Jersey. Posteriormente, a empresa expandiu-se para Virgínia Ocidental, Flórida, Porto Rico e República Dominicana. Muitas funcionárias eram associadas ao International Ladies’ Garment Workers’ Union, e os acordos entre empresa e sindicato estabeleciam salários e outras condições de trabalho.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Maidenform projetou e fabricou coletes para pombos-correio, permitindo que paraquedistas carregassem as aves ao saltar atrás das linhas inimigas. Produziu também paraquedas de seda em apoio ao esforço de guerra.

A empresa ficou conhecida por campanhas publicitárias inovadoras e, às vezes, controversas, começando pela série “I Dreamed”, lançada em 1949. Em 1992, o tom de sua publicidade havia mudado, como mostram os anúncios da campanha “Women’s Advocacy”.

Coreia do Sul: InBae Yoon

InBae Yoon (1936–2014) nasceu na Coreia e formou-se em 1961 na Faculdade de Medicina da Universidade Yonsei, em Seul. Três anos depois, imigrou para Baltimore, Maryland, por meio de um programa que vinculava médicos coreanos a hospitais e faculdades de medicina norte-americanos. Fez estágio e residência no Church Home and Hospital, especializando-se em obstetrícia e ginecologia.

Yoon interessou-se pelas técnicas cirúrgicas minimamente invasivas, que favoreciam recuperações mais rápidas e cicatrizes menores. Passou a inventar instrumentos para cirurgia laparoscópica, incluindo trocartes de segurança que abrem acesso ao corpo e permitem a introdução de outros instrumentos cirúrgicos. Recebeu mais de duzentas patentes norte-americanas.

No fim da década de 1990, criou o I.B. Yoon Multi-Specialty Endoscopic Research & Training Center na Faculdade de Medicina da Yonsei. Em seu discurso de inauguração, contou que sonhava com um instituto clínico equipado com tecnologias avançadas, como procedimentos endoscópicos e minimamente invasivos, para melhorar o atendimento aos pacientes. Acreditava que os médicos da Yonsei dariam saltos importantes na prática médica com base na inovação e na integridade que ele já havia presenciado ali.