Em 1776, Adam Smith começou sua obra célebre, Uma investigação sobre a natureza e as causas da riqueza das nações, com algo que soava como uma anedota. Ao descrever a fabricação de alfinetes metálicos — amplamente utilizados na época para desfiar e pentear fibras, costurar, alinhavar, confeccionar roupas e inúmeras outras aplicações —, Smith observou que uma pessoa sem experiência dificilmente conseguiria fazer mais que um alfinete por dia. Um artesão habilidoso, trabalhando sozinho, conseguiria produzir vinte. Mas, impulsionada pela “mão invisível” das forças de mercado, a produção de alfinetes se caracterizava pela divisão do trabalho: “Um homem estica o arame, outro o endireita, um terceiro o corta, um quarto faz a ponta, um quinto esmerilha a extremidade para receber a cabeça; para fazer a cabeça são necessárias duas ou três operações distintas [...]; branquear os alfinetes é outra; colocá-los no papel [da embalagem] constitui até uma profissão à parte”. Depois de visitar uma fábrica de alfinetes, Smith descreveu dez trabalhadores produzindo cerca de 48 mil unidades em um dia, um enorme ganho de produtividade em comparação com artesãos que trabalhavam individualmente.

Da observação da fabricação de alfinetes nos anos 1770, Smith deduziu dois pontos centrais nos debates atuais sobre tecnologia, inovação e emprego. Primeiro, forças invisíveis do mercado são fundamentais para a organização do trabalho e para os tipos de emprego disponíveis em determinado momento histórico. Segundo, mudanças na organização do trabalho trazem enormes benefícios econômicos, pois os produtos ficam mais baratos e os consumidores podem comprar mais. Mercadorias de menor custo podem estimular o consumo e, assim, ampliar o emprego. A partir dos anos 1820, inovações na mecanização afetariam o emprego de maneiras que Smith não previra, mas compatíveis com suas teorias. Tecnologias revolucionárias criaram e destruíram postos de trabalho, processo que passaria a caracterizar os duzentos anos seguintes.

A máquina rotativa de John Ireland Howe

Cerca de cinquenta anos depois da publicação de A riqueza das nações, inventores dos dois lados do Atlântico construíam máquinas para automatizar a fabricação de alfinetes. A complexidade do processo representava um desafio, mas, durante os anos 1830, foram concedidas inúmeras patentes para máquinas que inicialmente não funcionaram em escala maior. O inventor americano John Ireland Howe, por exemplo, passou mais de uma década experimentando diferentes ideias de máquinas de fabricar alfinetes depois de observar moradores endividados do abrigo municipal de Nova York produzirem manualmente essas peças, num trabalho penoso. A persistência finalmente deu resultado quando Howe desenvolveu um processo rotativo singular para produzir alfinetes com cabeça maciça a partir de um único pedaço de arame. A patente de sua máquina foi concedida em 1841.

Com o apoio de comerciantes nova-iorquinos, Howe fundara a Howe Manufacturing Company em 1833. A empresa mudou-se para Connecticut em 1836 e cresceu rapidamente depois do sucesso da máquina. Em 1845, Howe empregava setenta trabalhadores ao todo e registrava vendas de 60 mil dólares (equivalentes a 1,85 milhão de dólares de 2017). Além de outros artigos de metal, sua firma produzia mais de setenta mil alfinetes por dia com três máquinas. Em 1860, melhorias nos equipamentos de embalar alfinetes — uma especialização pouco qualificada já mencionada por Adam Smith em 1776 — reduziram o quadro de funcionários de Howe a 36 pessoas; o trabalho de fixar alfinetes nas embalagens praticamente deixou de existir.

Mudanças na fabricação e no emprego

Outros inventores desenvolveram máquinas que fabricavam alfinetes por processos diferentes ou realizavam etapas adicionais da produção. Walter Bagshaw, por exemplo, fabricante britânico de alfinetes que imigrou para os Estados Unidos no fim da década de 1850, conheceu novas abordagens de mecanização na cidade de Lowell, que se industrializava rapidamente. Fundou sua empresa, a Bagshaw Company, em 1870. Além de produzir alfinetes para a indústria têxtil, Bagshaw patenteou máquinas de fabricar pentes, ferros de frisar (usados por homens nos bigodes), equipamentos para separar fios reaproveitáveis de tecidos destinados à reciclagem e outras ferramentas e instrumentos que ampliaram as aplicações dos alfinetes metálicos. Em poucos anos, Bagshaw empregava cerca de setenta pessoas.

Entre as décadas de 1840 e 1880, os Estados Unidos passaram de importadores de alfinetes metálicos para vestuário e tecidos a um dos principais centros de sua fabricação, utilização e até exportação. O emprego na indústria foi de algumas pessoas trabalhando em abrigos a vários milhares de trabalhadores qualificados e não qualificados em fábricas de Connecticut e Massachusetts. Ao mesmo tempo, os fabricantes britânicos viram o número de fábricas de alfinetes em Gloucestershire cair de onze, em 1820, para zero, em 1870, enquanto o número de empresas de Birmingham recuou de centenas para cinquenta até 1900. Entretanto, depois da Guerra Civil americana, quando novas ondas de máquinas foram inventadas, os Estados Unidos entraram num longo período recessivo, de preços e salários em queda. Parte da deflação entre os anos 1870 e 1900 resultou da política macroeconômica, mas a aceleração das mudanças tecnológicas e a ruptura de sistemas antigos de aprendizagem profissional e de remuneração superior do trabalho qualificado também contribuíram.

O equipamento antigo que continuou em operação

A demanda por alfinetes para roupas estabilizou-se depois da Segunda Guerra Mundial, quando as roupas prontas passaram a dominar o mercado. A procura por alfinetes têxteis, porém, não desapareceu. Num processo observado também em outras indústrias, os fabricantes sobreviventes nos Estados Unidos e na Europa migraram para produtos mais sofisticados, entre eles pentes especializados, peças de precisão e agulhas para aplicações que incluem medicina, setor aeroespacial e eletrônica. A W. H. Bagshaw, agora administrada pela quinta geração da mesma família, comprou equipamentos de controle numérico computadorizado (CNC) no início dos anos 2000 e continua empregando cerca de quarenta pessoas na fabricação de peças de precisão a partir de metal trefilado. Mas a Bagshaw também mantém em funcionamento os equipamentos originais dos anos 1870 e consegue produzir até um milhão de alfinetes têxteis por dia para abastecer empresas do setor, principalmente nas Carolinas do Norte e do Sul.

Frequentemente procuramos na história da tecnologia narrativas simples de ruptura, casos em que uma tecnologia substitui completamente outra. Os fabricantes de carruagens não sobreviveram ao automóvel produzido em massa pela Ford. A maquinaria de fabricação de alfinetes, contudo, conta uma história mais complexa. Invenções dos anos 1870 continuam funcionando numa fábrica, mesmo quando máquinas CNC avançadas têm vida útil de trinta anos. O antigo e o novo podem coexistir atendendo a mercados especializados diferentes. Além disso, as transições tecnológicas na produção de alfinetes são interessantes diante do temor atual de que a próxima onda de inteligência artificial elimine empregos que vão do transporte rodoviário à contabilidade e aos serviços jurídicos. De modo mais realista, as inovações ajudarão determinados mercados a crescer e gerarão mais empregos no conjunto, embora algumas especializações vejam suas vagas diminuir ou desaparecer.