Frances Gabe, inventora da casa autolimpante, morreu aos 101 anos em 26 de dezembro de 2016. Fora uma breve menção no jornal The Newberg Graphic, de sua cidade natal, no Oregon, sua morte passou despercebida nacionalmente. Então, em meados de julho de 2017 — cerca de sete meses depois —, o New York Times publicou um obituário e, de repente, a história de Gabe estava em toda parte.

Um desafio do Spark!Lab

Eu conhecia a casa autolimpante porque ela é um dos exemplos que utilizamos no Spark!Lab, em nosso jogo Now What? (“E agora?”).

O jogo desafia os visitantes a pensar em como solucionar problemas usando recursos limitados. Por exemplo, você pode girar a roleta “Now” e receber o desafio: “Um filhote de cachorro aparece de repente. Você quer capturá-lo, mas só tem...” Uma rodada na roleta “What” informa que você dispõe de cinco tubos de papelão para resolver o problema. E agora? Como usar esses tubos para retirar o filhote do cômodo? Os visitantes pensam criativamente, sozinhos ou em grupo, e são incentivados a compartilhar e desenhar suas ideias de invenções.

Uma das minhas histórias favoritas do Spark!Lab envolve justamente a solução desse desafio. Uma mãe, um pai e o filho tentavam resolvê-lo juntos, e os adultos estavam com dificuldade para pensar em uma saída. O filho, porém, não: “Basta colar os tubos uns nos outros, atrair o cachorro para dentro e ele vai atravessá-los até sair do cômodo”. Quando os pais olharam perplexos, o menino, exasperado, disse: “Os tubos são GIGANTES!” e mostrou com os braços a largura que imaginava para eles. É um ótimo exemplo de como as crianças usam a imaginação e pensam criativamente de maneiras que os adultos muitas vezes não conseguem.

Para contextualizar o jogo Now What? com situações reais, apresentamos perfis de inventores que resolveram desafios diferentes. Mostramos Frank Epperson, que inventou o picolé depois que uma bebida deixada do lado de fora durante a noite congelou, e Gauri Nanda, que inventou o Clocky®, um despertador que incentiva as pessoas a sair da cama em vez de apertar o botão de soneca.

A patente e o funcionamento da casa

Outra inventora que destacamos é Frances Gabe. Nossa história sobre ela começa assim: “Você não tem tempo para limpar sua casa. E agora?” Naturalmente, essa é uma das favoritas dos visitantes de todas as idades — quem gosta de fazer faxina? —, e sua descrição da limpeza doméstica como “um trabalho ingrato, interminável, um tédio de arrasar os nervos” provoca identificação imediata. Mas algo que descobri sobre Gabe depois de sua morte é que ela considerava a casa autolimpante uma solução não apenas para suas próprias dificuldades, mas também para as de outras pessoas. Uma matéria de 1982 da revista People citou Gabe: “Quero eliminar todos os movimentos desnecessários para que pessoas com deficiência e idosos possam cuidar de suas casas por conta própria. Meu sistema permitirá fazer isso apertando alguns botões”. A mesma matéria destacou o desejo de Gabe de libertar as mulheres de passar tanto tempo limpando: “Deveríamos ser mães, esposas e vizinhas melhores e dedicar tempo ao nosso aperfeiçoamento, em vez de dizer: ‘Desculpe, preciso limpar a cozinha’”.

Em 1984, Gabe recebeu uma patente por uma “construção de edifício autolimpante”. A patente descreve a invenção como “equipamento para aplicar uma pulverização fina ou névoa de água e/ou água com detergente às superfícies de paredes, pisos e tetos, seguida de secagem por ar quente. Os pisos são inclinados em uma direção para retirar o excesso de umidade por meio de um ralo”. A patente de Gabe incluía, na verdade, 68 dispositivos diferentes que compunham a casa autolimpante, todos projetados para economizar tempo, energia e espaço em sua residência em Newberg, no Oregon.

Em 2003, o escritor Chuck Palahniuk apresentou um perfil de Gabe e de sua invenção no livro Fugitives and Refugees: A Walk in Portland, Oregon. Palahniuk descreve a casa:

“Para limpar a casa, basta ligar a água de um aspersor giratório no centro do teto de cada cômodo. Você acrescenta sabão por uma abertura no encanamento. A água da lavagem e do enxágue escorre pelo piso inclinado e sai pela lareira. Você liga o aquecimento e o ventilador para secar tudo. Na cozinha, prateleiras abertas permitem que toda a água escoe até o chão. Uma portinhola na parede conduz o lixo por uma calha até a lixeira. As roupas são lavadas e secas enquanto ficam penduradas em cabides presos a uma corrente que as conduz por cada etapa em um armário dividido em três partes. A primeira é um compartimento de lavagem; a parte central é um secador; e a última é o armário de armazenamento onde as roupas ficam, prontas para vestir.”

Talvez a melhor visão da casa de Gabe, porém, seja um vídeo de 1990 em que a própria inventora apresenta os cômodos ao repórter Carl Click. Ela descreve seus diferentes elementos e demonstra o funcionamento dos dispositivos de limpeza da cozinha — ou como deveriam funcionar, já que ocorre um pequeno defeito numa conexão de tubulação, que ela conserta facilmente.

Gabe trabalhou na casa autolimpante por mais de vinte anos, continuamente inventando, desenhando, testando e ajustando seus numerosos dispositivos. Alguns anos atrás, vendeu a casa e mudou-se para uma instituição de moradia assistida. O novo proprietário retirou todos os dispositivos de limpeza, embora ainda exista um modelo de sua casa construído por Gabe, preservado no Hagley Museum and Library, em Wilmington, Delaware. Gosto de imaginar que um jovem inventor possa ver esse modelo e sentir-se inspirado a retomar o trabalho de onde Gabe parou. Além de ser uma bela homenagem à inventora, isso talvez signifique que algum dia eu poderei girar um botão ou acionar um interruptor e — pronto! — minha casa estará limpa. Sonhar não custa nada, não é?