Historiadores, economistas e outras pessoas interessadas em invenção e inovação frequentemente utilizam patentes como fontes primárias. Na verdade, para a maioria dos inventores ao longo da história, dispomos de poucos ou nenhum outro registro de suas vidas, processos de pensamento ou motivações. As histórias dos sistemas de propriedade intelectual normalmente começam com as leis de patentes promulgadas na Veneza do século XV, passam às patentes britânicas concedidas sob o Estatuto dos Monopólios de 1624 e depois chegam à Constituição dos Estados Unidos de 1787, que incluía uma cláusula amplamente considerada democratizadora do acesso ao patenteamento. Com o tempo, essas leis superaram a abordagem alternativa de manter novas tecnologias como segredos comerciais, muitas vezes sob o controle restrito de corporações de ofício.
Mas contar a história da invenção dessa maneira revela um forte viés europeu e norte-americano. Recuar até uma coleção de invenções da Bagdá do século IX, publicada em 850 sob o título Kitab al-Hiyal (Livro dos Dispositivos Engenhosos), oferece uma perspectiva intrigante sobre como inventores descrevem e divulgam seu trabalho.
Dispositivos engenhosos
No Kitab al-Hiyal, três irmãos — Muhammad, Ahmad e al-Hasan bin Musa ibn Shakir, conhecidos como Banu Musa (“filhos de Moisés”) — descrevem cerca de cem dispositivos. Filhos de um astrônomo respeitado, os irmãos receberam apoio do governante de Bagdá, al-Mamun, e de seus sucessores. Entre outros projetos notáveis, estava uma iniciativa para medir a circunferência da Terra, realizada caminhando por uma distância demarcada até observar uma mudança de um grau na altura da Estrela Polar — medição repetida em dois locais para obter maior precisão. Eles calcularam uma circunferência de 24 mil milhas, apenas ligeiramente inferior ao valor moderno de 24.902 milhas. Individualmente e em conjunto, também publicaram tratados importantes sobre geometria e matemática, medição do tempo, natureza da fala e outros assuntos.
Escrito em um período caracterizado como “idade de ouro” das descobertas islâmicas em ciência, engenharia e medicina, acompanhado de avanços linguísticos, filosóficos e culturais, o Kitab al-Hiyal difere dos manuscritos científicos da época por descrever tecnologias úteis e práticas. A expressão “Idade de Ouro Islâmica” tem origem incerta, mas passou a ser amplamente utilizada desde que estudos publicados na década de 1970 criticaram antigas percepções ocidentais do Oriente Médio e da Ásia como regiões primitivas ou alheias à ciência.
O Kitab al-Hiyal inclui modificações de dispositivos descritos em manuscritos gregos e romanos mais antigos, além de novas tecnologias inventadas pelos três irmãos. Diferentemente de textos anteriores, porém, as descrições se concentram na mecânica e na engenharia, e não na teoria ou na epistemologia. A maioria das invenções se enquadra em algumas categorias amplas: potes e jarros para armazenar e distribuir líquidos, fontes que produzem diferentes formatos e lamparinas a óleo. Os avanços tecnológicos subjacentes incluem pneumática, controles automáticos baseados em variações da pressão aerostática e hidrostática, manivelas acionadas pela água, válvulas automáticas, sistemas de temporização e atraso e válvulas cônicas que controlavam o fluxo de água ou óleo no interior de um circuito. Outras invenções da coleção incluem ferramentas para apanhar objetos à distância e um sistema de foles e tubos para trabalhar debaixo da terra em poços com ar venenoso.
Recipientes
Oitenta e sete dos cem dispositivos são potes, bacias, jarras e outros recipientes usados para armazenar e descarregar líquidos. Os projetos variam desde dioramas divertidos de animais mecânicos bebendo em cochos até jarros que mantinham separadas a água quente e a água fria destinadas a lavagens rituais — mas permitiam misturá-las quando despejadas corretamente — e recipientes com sistemas internos capazes de ferver água.
Um dos dispositivos, por exemplo, apresentava um touro mecânico — o tamanho não é informado — que emitia um som como se estivesse com sede e depois se movia até um cocho com água, que consumia pela boca. O mecanismo dependia de uma combinação de água alimentada pela gravidade e uma polia na boca do touro, ligada por uma corrente a uma boia.
À medida que o touro puxava água pela boca, a boia subia, e a água fluía por sua perna até um reservatório abaixo do animal. Configurada para produzir vácuo, a água descendente puxava mais água para dentro do cocho. Além disso, a água escorria por uma “espécie de escadaria”, produzindo o som de um touro sedento.
Fontes
Um segundo conjunto de invenções descreve fontes, algumas movidas pela pressão da água conduzida por gravidade, outras por rodas com pás giradas pelo vento. Por exemplo, uma fonte eólica podia lançar água no formato de um lírio-do-vale ou de uma lança. À medida que o vento girava as pás, um eixo central com reservatório de água também girava. A água despejada por uma saída do tanque rotativo fluía para um de dois recipientes, cada um alimentando um dos diferentes formatos da fonte. Como sistema de reserva para os dias sem vento, um tubo alimentado por gravidade despejava água sobre a roda de pás, mantendo a fonte em funcionamento. Outras fontes criavam cones e escudos de água, além dos formatos de lança e lírio-do-vale.
Lamparinas
Quatro invenções consistiam em lamparinas capazes de repor o óleo à medida que era consumido, alongar o pavio conforme queimava, executar ambas as ações ou proteger a chama do vento. A lamparina que combinava um pavio móvel e reposição automática de óleo dependia de um sofisticado conjunto de câmaras e de uma haste dentada que fazia o pavio avançar.
Representada com um “pássaro” na parte superior, sua descrição afirma: “O bico do pássaro deve estar acima do orifício (f) da lamparina para que, quando o óleo fluir pelo tubo (ae), descarregue no orifício (f) e entre na lamparina”. Conforme o pavio queima e o óleo no reservatório diminui, a “boia (t) afunda, puxando a corrente; o peso (s) sobe; a polia (k) e a roda dentada (y) giram; a haste à qual prendemos o pavio se move na direção da marca (x), e o pavio, portanto, emerge”.
Ontem e hoje
De modo geral, o Kitab al-Hiyal descreve invenções em uma linguagem que especifica como cada tecnologia é construída, seus métodos de operação e uso e indícios de novidade. Cada invenção vem acompanhada de ilustrações identificadas dos elementos mecânicos específicos e de descrições de como funcionam separadamente e em conjunto. Todas terminam com a frase “E isso é o que desejávamos explicar”, sugerindo que o objetivo era compartilhar com outras pessoas informações sobre os avanços mecânicos.
Nos últimos anos, as invenções dos Banu Musa foram reanalisadas por engenheiros mecânicos e hidráulicos que, em alguns casos, desenvolveram modelos detalhados e simulações digitais das fontes. Várias dessas tecnologias fizeram parte de uma exposição itinerante e de um programa educacional, 1001 Inventions. Também apareceram em diversos materiais educativos, de livros de engenharia a livros infantis.
Embora os registros da corte documentem a participação dos Banu Musa na turbulenta política de Bagdá, temos poucas informações adicionais sobre os três irmãos inventores: o que os inspirava, os desafios que enfrentaram e se vendiam seus dispositivos ou de que maneira o faziam — mais um motivo para que os inventores de hoje mantenham bons registros. Mas gosto de pensar que eles se sentiriam honrados ao saber que suas invenções intrincadas, engenhosas e úteis do século IX continuam inspirando jovens atualmente.