Os objetos das coleções de museus são marcos que apontam para diversas histórias de invenções. As datas de patente nos objetos conduzem aos números de patente e, por sua vez, aos nomes dos inventores e a seus locais de residência. As patentes também eram frequentemente mencionadas em revistas, enquanto anúncios dos produtos resultantes oferecem informações adicionais. Arquivos de incorporação às coleções, registros genealógicos, reportagens de jornais e catálogos de bibliotecas contribuem com outros detalhes — muitas vezes inesperados. Por exemplo, utilizando essas evidências, é possível associar diversos instrumentos matemáticos das coleções do Museu Nacional de História Americana (NMAH), do Smithsonian, a jornalistas norte-americanos do século XIX.
A máquina de multiplicar de Ramón Verea
Em 1878, Ramón Verea, da cidade de Nova York, patenteou uma máquina capaz de multiplicar diretamente dois números, em vez de exigir somas repetidas. O modelo de patente dessa máquina sobrevive na coleção do NMAH. A multiplicação direta por meio de uma máquina não era uma realização pequena, e o trabalho de Verea antecipou uma grande variedade de máquinas de calcular. O modelo e sua etiqueta de patente não revelam quem era Verea, mas pesquisas adicionais mostraram que ele era um livre-pensador nascido na Espanha, que passou algum tempo em Cuba e depois fundou um dos primeiros jornais de língua espanhola da cidade de Nova York. Ele afirmou que havia registrado a patente não porque esperasse desenvolver um produto comercial, mas para provar que um espanhol podia inventar tão bem quanto um norte-americano.
Outro jornalista do século XIX que se dedicou à invenção teve mais sucesso ao comercializar suas ideias. Era Charles Henry Webb, nascido no estado de Nova York em 1834 e atuante tanto em Nova York quanto na Califórnia como escritor, editor e jornalista. Webb patenteou pela primeira vez uma “somadora” em 1868, e Lester C. Smith apresentou uma versão aperfeiçoada em 1889. Esses primeiros dispositivos só conseguiam somar números até um total de 4.999. Em 1891, Webb patenteou um tipo diferente de somadora, que encontrava totais de até oito algarismos. Seu estilo era mais próximo ao das somadoras posteriores, mas não vendeu bem.
A documentação de Robert Pelham
Durante a atual pandemia, porém, um curador não tem acesso fácil às coleções que são uma fonte tão rica de histórias surpreendentes, como a ligação entre invenção e jornalismo. Ainda assim, novas pistas costumam surgir.
Um palestrante de um simpósio do Lemelson Center, Black Inventors and Innovators: New Perspectives, por exemplo, mencionou um livreto de 1913 sobre inventores afro-americanos que cita Robert A. Pelham (1859–1943), jornalista e funcionário público nascido em Detroit. Esses comentários me levaram a pesquisar mais. Republicano por toda a vida, Pelham foi contratado pelo Detroit Daily Post e depois fundou seu próprio jornal, The Detroit Plaindealer. A partir de 1887, ocupou diversos cargos nos governos de Michigan e, posteriormente, dos Estados Unidos. Em 1900, mudou-se com a família para Washington, D.C., onde se tornou funcionário do Departamento do Censo e permaneceu até se aposentar em 1929.
O Censo passava por rápidas transformações quando Pelham chegou. A Constituição norte-americana determina que o governo federal conte a população do país a cada dez anos para distribuir de forma justa as cadeiras da Câmara dos Representantes. Essas contagens começaram em 1790. Com o aumento da população, o processamento dos dados foi ficando para trás. Os resultados do Censo de 1880 só foram publicados integralmente em 1888. Isso estimulou o desenvolvimento de novas máquinas para ajudar na contagem, utilizadas com sucesso a partir de 1890.
Ao mesmo tempo, as autoridades buscavam dados sobre uma variedade de outros assuntos e precisavam deles com frequência maior do que uma vez a cada dez anos. Atento a essa demanda, em 1902 o Congresso dos Estados Unidos estabeleceu o Departamento do Censo como órgão permanente. Cresceram as solicitações de censos da indústria, da produção agrícola — sobretudo de algodão — e de cidades específicas. Em 1905, o Departamento também estava desenvolvendo um laboratório próprio, no qual equipamentos de tabulação existentes eram consertados e novos projetos eram concebidos. Algumas pessoas que ali trabalhavam, como James Powers, mais tarde estabeleceriam suas próprias empresas.
Inovações no processamento do Censo
Pelo menos um funcionário do Censo, Robert Pelham, já pensava em novos métodos. Desde o início de sua permanência no Departamento, ele se empenhava em trabalhar com eficiência. Na época, esperava-se que os funcionários tabulassem entre trezentos e seiscentos formulários por dia. Uma reportagem de 13 de março de 1902 informou que Pelham estava tabulando 1.150 fichas num único dia, com uma taxa de erros pouco superior a 1%, superando o recorde anterior de 908 formulários diários.
Pouco depois, Pelham foi designado para compilar estatísticas da indústria. Nesse trabalho, costumava-se fazer cópias em papel-carbono das folhas de recenseamento, cortá-las em pequenas tiras e classificar os pedaços de papel para reunir as estatísticas de empresas pertencentes a indivíduos, sociedades e corporações, bem como estabelecimentos com diferentes valores de produção. As tiras eram então coladas manualmente. Pelham inventou um “aparelho de colagem” para acelerar essa remontagem. A primeira versão de sua invenção consistia em “duas caixas de charutos, um rolo de madeira, dois parafusos para madeira, algumas peças de cortina, um pedaço de lata e uma pequena tira de borracha em folha”. Quando solicitou a patente, em setembro de 1905, seu modelo era muito mais elegante. A concessão veio rapidamente, em 19 de dezembro daquele ano. A invenção foi adotada pelo Departamento e proporcionou economias consideráveis. Pelham também recebeu crédito pelo desenvolvimento de um dispositivo de contagem aperfeiçoado em 1913, embora isso não tenha resultado em patente.
Pelham apresentou suas invenções em agosto e setembro de 1915 no Lincoln Jubilee and Exhibition of Freedmen's Progress, feira realizada em Chicago para comemorar o quinquagésimo aniversário da aprovação da Décima Terceira Emenda à Constituição, que aboliu a escravidão nos Estados Unidos. Demonstrar equipamentos do Censo não era sua única função na exposição: ele também assumiu a responsabilidade pelas mostras da Howard University, da Associação de Ex-Alunos da Howard University — instituição na qual obtivera o diploma de direito em 1904 — e da Capitol Consulting Co.
Em nossa época, quando a entrada eletrônica de dados e os cálculos digitais estão disseminados, não é difícil imaginar carreiras em computação e processamento de dados. No fim do século XIX e no começo do XX, esse tipo de trabalho ainda não era amplamente conhecido. Todos os inventores que mencionei mantinham empregos regulares em jornais e editoras, onde eram constantemente expostos a novas ideias, embora nem sempre a tecnologias de computação. Pelham foi quem mais se aproximou do trabalho de estatístico em sua carreira no Departamento do Censo, mas preservou o interesse pelo mundo do jornalismo.