“Se você quer fazer um aperfeiçoamento, uma inovação ou uma invenção, o lugar onde deve procurar é dentro de si”, disse Mike Augspurger aos estudantes numa apresentação do programa Innovative Lives, do Lemelson Center, em maio de 2000. “Se você é bom em duas ou três coisas e consegue fazê-las trabalhar juntas, talvez seja aí que possa contribuir e fazer algo que nunca foi feito antes.” Ele falava por experiência própria como ciclista experiente, mecânico habilidoso e projetista e construtor de bicicletas. Augspurger, fundador da One-Off Titanium, Inc., é especialista em bicicletas especiais com quadros de titânio, incluindo a primeira bicicleta manual todo-terreno destinada a atletas que usam cadeiras de rodas.

Ao encontrar estudantes de quatro escolas — Rosa Parks Middle School, em Olney, Maryland; Nicholas Orem Middle School, em Hyattsville, Maryland; Jefferson Junior High School, em Washington, D.C.; e Nysmith School, em Herndon, Virgínia —, Augspurger demonstrou sua One-Off All-Terrain Handcycle e descreveu seu antigo interesse pelo ciclismo e pelo projeto de bicicletas, além do uso experimental do titânio em bicicletas e outros produtos.

Augspurger nasceu em 1956 em Fort Wayne, Indiana, lugar que descreve como tendo “bons esportes ao ar livre”. Sua mãe era enfermeira e o pai trabalhava na indústria gráfica, mas ambos eram apaixonados por corridas de kart. Algumas das primeiras lembranças de Augspurger são de observar o pai desmontar e reconstruir o motor do kart depois de cada corrida. Outra lembrança viva é a de ficar sentado entre as pernas de um dos pais, agarrado ao eixo de um kart, usando um capacete grande demais, ouvindo muito barulho e recebendo a ordem: “Segure firme!”. O pai chegou a construir para ele um kart infantil, mas nunca encontrou um motor pequeno o suficiente.

Não surpreende que Augspurger tenha crescido com talento e entusiasmo para mexer em máquinas e pilotá-las. Seu interesse, porém, estava em motocicletas e bicicletas, não em karts. A primeira bicicleta, comprada pelos pais na década de 1950, custou doze dólares. Por volta de 1960 ganhou uma Schwinn: “As únicas bicicletas que se podia comprar [naquela época] eram norte-americanas, como Schwinn ou Columbia, de qualidade muito alta, mas pesadas. A bicicleta durava para sempre, mas pesava quase tanto quanto eu”. Bicicletas de corrida e mountain bikes ainda não estavam no mercado, e o alumínio não havia sido utilizado na fabricação de bicicletas. O peso elevado da bicicleta fazia Augspurger desejar que ela tivesse um motor.

Com o dinheiro de seu primeiro emprego, empacotando compras de supermercado, Augspurger comprou um kart de corrida. Pouco depois, porém, seu interesse se concentrou nas motocicletas. Assim que teve idade para dirigir, passou a pedir emprestada a van dos pais para levar sua motocicleta — que modificara para reduzir o peso — às competições. Não se interessava pelas corridas de velocidade, mas por provas de habilidade chamadas trials, que exigiam manobrar pelo “pior terreno possível: pedras, troncos, travessias de água e todo tipo de morro”. Os pilotos acumulavam pontos de penalização a cada vez que colocavam um pé no chão para recuperar o equilíbrio; vencia quem tivesse a menor pontuação ao fim da competição.

O titânio e a fabricação de bicicletas

Augspurger gostava do desafio das condições difíceis e, no ensino médio, era conhecido como “o sujeito que ia à escola de motocicleta todos os dias, não importava o tempo — neve, chuva ou qualquer outra coisa”. Depois de concluir o ensino médio em 1974, estudou mecânica de motocicletas durante um ano no Indiana Institute of Technology e fez cursos na Universidade de Evansville. Não via necessidade de uma formação universitária convencional e, quando lhe perguntavam qual seria sua área de concentração, respondia sem hesitar: “Indeciso”.

Depois de voltar para casa e passar mais um ano dirigindo um caminhão de entregas, partiu de motocicleta para a Califórnia. Atravessou o país e percorreu a costa californiana de norte a sul. Pronto para trabalhar novamente, conseguiu um emprego numa oficina de usinagem como polidor de metais. O serviço era sujo, perigoso e cansativo, mas lhe permitiu finalmente tornar-se aprendiz de mecânico, obtendo treinamento prático. Durante o aprendizado, ouviu falar do Hampshire College, em Massachusetts, que tinha um programa incomum. “Gostei imediatamente porque não tinha notas, provas nem disciplinas obrigatórias.” Inscreveu-se e foi aceito. Prosseguiu em sua área “indecisa” frequentando cursos de filosofia, psicologia e escrita de ficção. Foi a escrita que se mostrou mais importante: “A escola é boa para algumas coisas, especialmente para aprender a escrever. Uso isso o tempo inteiro; qualquer pessoa usaria. [...] Consigo escrever cartas rapidamente, e ficam boas. Antes, sem a faculdade de artes liberais, teria sido uma verdadeira luta”. Por algum tempo, Augspurger utilizou suas habilidades de escrita como colunista da revista de ciclismo Velo News.

Em 1981, com o bacharelado do Hampshire, conseguiu outro emprego numa oficina de usinagem, desta vez como fabricante de moldes para uma empresa da região de Boston que produzia peças fundidas e moldes para aplicações de engenharia e indústria. As mountain bikes haviam sido introduzidas apenas alguns anos antes, e Augspurger comprou um dos primeiros modelos disponíveis. “Gostei da ideia de uma bicicleta que fosse como a motocicleta que eu usava nas provas de trial”, explica, “para enfrentar o pior terreno possível”.

Começou imediatamente a modificar e aperfeiçoar a mountain bike e depois, ainda insatisfeito, passou a construir seu próprio quadro. Desejando acesso a toda a variedade de equipamentos necessários à fabricação de bicicletas, mudou de emprego novamente, desta vez para uma fábrica de bicicletas na região de Boston, a Fat City Cycles. O proprietário se chamava Chris Chance, e a empresa produzia uma linha de bicicletas chamada “Fat Chance”. Ali Augspurger adquiriu mais conhecimentos e habilidades em projeto e construção de bicicletas. Tornou-se um mountain biker experiente e conquistou o terceiro lugar no campeonato nacional de trial de bicicleta em Reno, Nevada, em 1985.

Outro acontecimento importante daquele ano foi seu casamento com Leni Fried, artista que conhecera ao se mudar para Boston. Formada na Art Students’ League e no Pratt Institute, em Nova York, ela trabalhava com gravura e também era entusiasta do mountain bike e utilizava a bicicleta para seus deslocamentos. Quando um amigo da Fat City Cycles lhe pediu ajuda para pintar uma bicicleta, ela ampliou o trabalho criativo para incluir a pintura personalizada de quadros.

Em 1987, Augspurger estava pronto para abrir sua própria empresa. Com a esposa e dois sócios — Gary Helfrich, conhecido na Fat City Cycles, e Gwyndaf Jones, amigo do Hampshire College —, fundou a Merlin Metalworks, Inc. Localizada em Somerville, Massachusetts, a Merlin logo conquistou reputação como primeira fabricante de quadros de bicicleta de titânio e cadeiras de rodas de competição. Leni Fried era responsável pelo acabamento do metal, incluindo a anodização, processo elétrico que faz surgir cores no titânio.

O desenvolvimento da handcycle todo-terreno

O titânio é um metal muito forte, leve e resistente à corrosão, mais flexível e resiliente do que o aço. É um elemento comum na areia das praias, mas, por ser difícil extraí-lo e processá-lo, custa muito caro — cerca de dez vezes o preço do aço. Passou a ser usado na indústria aeroespacial, mas seu custo e as limitações tecnológicas — acreditava-se que sua soldagem exigia condições muito difíceis — restringiam o uso em outros tipos de produção. Helfrich, porém, estava convencido de que poderia encontrar uma maneira de soldar titânio, e encontrou. A Merlin Metalworks projetou e fabricou mountain bikes e outras bicicletas de titânio que chamaram a atenção da comunidade ciclística. Sua produção anual chegou a quase mil quadros. Em 1988, a revista Bicycle Guide elegeu um modelo da Merlin entre “as dez bicicletas mais inovadoras do ano”. Mais tarde, leitores da Bicycling votaram na Merlin como “marca de maior prestígio” do ano.

Na mesma região onde ficava a oficina morava Bob Hall, primeira pessoa a participar da Maratona de Boston numa cadeira de rodas. Hall construía suas próprias cadeiras de competição, mas, em projeto e construção, elas não eram radicalmente diferentes das cadeiras convencionais, embora possuíssem aperfeiçoamentos que as tornavam mais rápidas. A equipe da Merlin conheceu Hall e começou a fabricar para ele cadeiras de competição em titânio, ainda mais leves e rápidas, mas Augspurger nunca ficou satisfeito com a tecnologia básica:

Você as impulsiona com as mãos, usando o que se chama de aro de propulsão. [...] Eu sempre pensei, vindo do mundo das bicicletas: e as manivelas? E as marchas? O passo seguinte, na minha cabeça, eram bicicletas manuais com manivelas, correntes e câmbio. Eu continuava imaginando esse projeto e pensava: quero fazer o meu. Acho que consigo algo melhor.
Você as impulsiona com as mãos, usando o que se chama de aro de propulsão. [...] Eu sempre pensei, vindo do mundo das bicicletas: e as manivelas? E as marchas? O passo seguinte, na minha cabeça, eram bicicletas manuais com manivelas, correntes e câmbio. Eu continuava imaginando esse projeto e pensava: quero fazer o meu. Acho que consigo algo melhor.

Depois de dois anos, Augspurger deixou a Merlin para trabalhar de forma independente, fundando e tornando-se único proprietário da One-Off Titanium, Inc., em Florence, Massachusetts. A expressão one-off é usada na indústria para designar um protótipo ou produto único. Na One-Off Titanium, Augspurger cria produtos experimentais e personalizados, normalmente sob encomenda. A maior parte de seu trabalho está ligada a bicicletas. Entre os projetos que criou, adaptou e construiu desde 1989 está um quadro de mountain bike com suspensão integral, feito de aço e titânio. Ele realiza pessoalmente todas as etapas do trabalho, desde o conceito e o projeto até a usinagem, montagem, soldagem e parte do acabamento.

Augspurger atribui grande parte do sucesso da One-Off Titanium à esposa. “Nada disso teria acontecido sem ela. Eu não teria tempo nem coragem de seguir sozinho. Ela é quem entende de finanças e administra o escritório.” Leni também oferece anodização personalizada de quadros de titânio, criando padrões e desenhos que transformam as bicicletas em obras de arte.

Na One-Off, Augspurger ficou livre para seguir suas próprias ideias. Uma delas há muito o atraía: criar um tipo diferente de cadeira de rodas esportiva, mais semelhante a uma mountain bike do que a uma bicicleta de corrida. Alguns modelos já estavam no mercado: um veículo de descida com quatro rodas, mas sem autopropulsão, destinado a ser rebocado até o alto de uma montanha por guincho ou teleférico para que o usuário descesse por inércia; e bicicletas manuais de três rodas com tração dianteira. Como parte da pesquisa e do desenvolvimento de uma bicicleta manual melhor, Augspurger comprou e pilotou os modelos existentes, anotando o que gostava e o que não gostava neles.

Depois de dez anos produzindo ideias e esboços preliminares, estava pronto para construir e testar a sua. Primeiro fabricou um modelo de duas rodas, mas o rejeitou por ser inseguro. Depois, utilizando peças de bicicletas antigas, fez um veículo com duas rodas na frente e uma atrás, com uma corrente ligada à roda traseira para transmitir a tração. Essa configuração funcionava, mas ele experimentou durante algum tempo diferentes posições para o ciclista. Todos os outros modelos que havia visto colocavam o usuário sentado, com as pernas esticadas para a frente. Mas atletas paraplégicos não conseguem usar as pernas para deslocar o peso do corpo e aliviar o impacto das irregularidades do caminho enquanto pedalam com as mãos e os braços. Como praticante de mountain bike, Augspurger queria criar uma bicicleta manual que oferecesse a atletas que usam cadeiras de rodas o melhor desempenho em terreno irregular. O maior problema era encontrar uma maneira de pedalar com os braços e dirigir ao mesmo tempo.

Testes com atletas e adaptações

Finalmente, Augspurger concebeu um projeto inovador: as pernas do ciclista ficam dobradas para trás e presas a suportes, enquanto a parte superior do corpo se inclina para a frente, com os braços estendidos para baixo, alcançando as manivelas, e o peito apoiado numa almofada, quase de bruços. Há um guidão dianteiro que pode ser usado para dirigir nas descidas; nas subidas ou em terreno plano, quando os braços precisam acionar as manivelas, o apoio do esterno, que gira e está ligado por cabos ao mecanismo de direção, pode ser virado para a esquerda ou direita pelo movimento do peito. Freios e mudanças de marcha ficam no guidão.

A posição quase de bruços permite utilizar o peso do corpo com mais eficiência. “Quando você encontra uma irregularidade, pode sustentar o peso nos braços, levantar a frente ou mover-se de um lado para outro” para compensar o impacto, diz Augspurger. As manivelas manuais, ligadas às engrenagens e à corrente, são montadas de modo que, quando o usuário empurra para baixo com um braço, pode puxar para cima com o outro, aproveitando ao máximo a força muscular. A combinação de direção pelo guidão e pelo esterno resolve o dilema entre pedalar e dirigir. O quadro principal da One-Off All-Terrain Handcycle é feito de aço pintado, para garantir resistência, enquanto a maioria das outras peças é de titânio.

Durante todo o longo processo de projeto e desenvolvimento, Augspurger pediu a atletas que usam cadeiras de rodas que experimentassem seus modelos. Eles estavam ansiosos para ajudar. Augspurger se perguntava, por exemplo, se uma pessoa parcialmente paralisada conseguiria transferir facilmente as mãos das manivelas para o guidão e vice-versa. Terry Ball, atleta paraplégico que pratica várias modalidades, demonstrou que isso era possível.

Trabalhar com atletas com deficiência fez Augspurger perceber como são únicas as necessidades e capacidades de cada pessoa, e sua construção personalizada permite adaptar a bicicleta manual a cada indivíduo. Embora a fabricação sob medida com titânio torne seus veículos caros, ele não está interessado em produção em grande escala. Prefere continuar experimentando e projetando novos tipos de bicicletas e outros produtos. Já atendeu pedidos de conjuntos de acessórios de titânio para lareiras, lâminas de liquidificador, utensílios de cozinha e até uma espada — e seu produto mais vendido são alianças de casamento de titânio! As pessoas descobrem seu trabalho por meio de revistas de ciclismo, recomendações pessoais, uma fita de vídeo que ele distribuiu e seu site One-Off Titanium, Inc.

Recentemente, alguém o encontrou pela internet e encomendou uma versão de quatro rodas da One-Off All-Terrain Handcycle para escalar o Monte Rainier, no estado de Washington. O Monte Rainier, pico vulcânico de 14.410 pés de altitude, é a montanha mais alta da cadeia das Cascatas. Com encostas íngremes e superfície coberta de gelo, sua escalada é extenuante até para montanhistas experientes e sem deficiência e frequentemente é utilizada no treinamento para ascensões ao Everest. Ao descrever o novo desafio, Augspurger afirma: “Os pneus terão de ser feitos com pontas e pás de alumínio para se cravar no gelo e na neve, e as marchas terão de ter relações ainda mais reduzidas do que agora. [...] Portanto, há muita pesquisa a fazer, e espero poder continuar criando cada vez mais tipos diferentes. [...] Vai ser divertido!”