“A cor faz você se sentir vivo.” Assim brinca a química cinematográfica Beverly Wood, cujas inovações nas tecnologias de cor contribuíram para o sucesso de filmes como Seven, O Brother, Where Art Thou? e Skyfall.

Autodenominada “sussurradora de películas”, Wood ajuda diretores de fotografia e cineastas a alcançar suas visões artísticas de um filme. Por isso recebeu elogios pelas tecnologias de processamento de películas conhecidas como Color Contrast Enhancement e Adjustable Contrast Enhancement. Ao ler sobre Wood, chamou-me a atenção seu amor simultâneo por cinema e televisão e pela química, e a maneira como encontrou uma forma de combinar suas duas paixões. Wood foi recentemente entrevistada em um programa público organizado pelo Lemelson Center.

Conhecer a trajetória de Wood antes do programa Innovative Lives, realizado em 8 de março de 2023, levou-me a pensar nas contribuições, reconhecidas ou não, das mulheres que trabalham na indústria cinematográfica. Sinto-me particularmente atraída pela história de Alice Guy Blaché, que, como Wood, aplicou seus interesses, seu pensamento inventivo e uma abordagem experimental à narrativa e à produção cinematográficas. Embora fosse conhecida no começo do século XX, Guy Blaché caiu no esquecimento até que pesquisas recentes trouxeram à luz suas contribuições para a produção de filmes. Este texto é uma pequena tentativa de divulgar a história de uma inventora que, durante décadas, foi uma “figura oculta”.

Alice Guy-Blaché e os primeiros filmes narrativos

Como tantos outros inventores, Guy Blaché tinha uma capacidade excepcional não apenas de resolver problemas, mas também de identificá-los. Depois de assistir a uma sessão experimental do recém-inventado cinematógrafo dos irmãos Lumière, em 1895, ficou impressionada com a tecnologia da câmera, mas decepcionada com sua aplicação. A demonstração dos Lumière incluía a exibição de um filme curto chamado actualité, essencialmente uma filmagem de acontecimentos, locais ou objetos do cotidiano. Guy Blaché considerou pouco inspirador o trecho apresentado, que mostrava trabalhadores saindo da fábrica dos Lumière, e percebeu, em vez disso, o potencial do meio para educar e entreter.

Guy Blaché tinha então 22 anos e trabalhava como secretária do inventor de câmeras cinematográficas e empresário Léon Gaumont. Empregada numa empresa que inicialmente vendia equipamentos fotográficos, interagia com cientistas, inventores e empresários entusiasmados com a tecnologia e em busca de maneiras de utilizá-la. Guy Blaché compartilhava esse entusiasmo.

Apesar de não possuir experiência técnica, a formação humanística e o apreço pelas artes de Guy Blaché, somados ao acesso às câmeras cinematográficas, motivaram-na a tentar produzir filmes. Como recordaria mais tarde em suas memórias: “Naquela época, as pessoas ainda filmavam cenas de rua, um trem chegando à estação e coisas assim. Eu era filha de um livreiro e amava livros. Havia lido muito. Também havia feito um pouco de teatro amador. Pensei que seria possível fazer algo melhor. Então sugeri ao senhor Gaumont que eu filmasse algumas cenas. Ele disse: ‘Parece uma coisa de menina, meio boba, mas você pode tentar se quiser. Com uma condição: que seu trabalho de escritório não seja prejudicado’”.

As primeiras produções de Guy Blaché eram curtas — não tinham mais do que alguns minutos, como era comum —, mas Gaumont admirou tanto seu trabalho que decidiu ampliar os negócios da empresa. Além de desenvolver e fabricar câmeras e outras tecnologias fotográficas e cinematográficas, a Gaumont passou a estar entre as primeiras empresas produtoras de filmes, com Guy Blaché à frente dessa iniciativa. Seu sucesso a levaria, com o marido, aos Estados Unidos, onde, em 1910, ajudaria a fundar o estúdio cinematográfico Solax Company.

Ao longo da carreira como roteirista, produtora e diretora, a filmografia de Guy Blaché abrangeria entre seiscentas e mil obras, incluindo algumas dezenas de longas-metragens. Mais importante, porém, do que sua extraordinária produção foi o impacto dos filmes de Guy Blaché, que ajudaram a transformar o cinema de novidade tecnológica em uma forma de arte duradoura. Ela promoveu a evolução técnica e criativa do cinema, influenciando cineastas renomados como Sergei Eisenstein e Alfred Hitchcock.

Por seus interesses em literatura e artes cênicas, Guy Blaché sabia o que tornava uma história boa. Com a colaboração técnica dos operadores de câmera da Gaumont, recebe crédito por ter inovado em vários recursos narrativos destinados ao novo meio cinematográfico. Como cineasta, experimentou intensamente com a película, invertendo, desacelerando, acelerando e interrompendo a filmagem. Empregou técnicas de processamento como dupla exposição, tela dividida e desaparecimento gradual da imagem. À medida que se desenvolvia como narradora, experimentou e utilizou com eficácia o primeiro plano, cortes de montagem, enquadramentos inclinados, movimentos de câmera e filmagens em locações externas.

Guy Blaché incentivou outras mulheres a entrar nesse campo. Em 1914, escreveu na revista profissional The Moving Picture World: “Não há nada relacionado à encenação de um filme que uma mulher não possa fazer com a mesma facilidade de um homem, e não há razão para que ela não possa dominar completamente todas as técnicas dessa arte [...] A técnica da fotografia cinematográfica, assim como a técnica do drama, adapta-se às atividades de uma mulher”.

Experiências com cor e som

Guy Blaché talvez seja mais conhecida por ter estado entre as primeiras pessoas a explorar o uso de som e cor. Apesar de trabalhar na chamada “era do cinema mudo”, produziu centenas de phonoscènes, ou filmes sonoros, utilizando o Chronophone, aparelho patenteado por Léon Gaumont que combinava as imagens produzidas por um cinematógrafo ao som registrado em discos fonográficos. E muito antes de O Mágico de Oz, de 1939, cujo uso inventivo e dramático da cor ajudou a popularizar o Technicolor, Guy Blaché dedicou tempo e recursos a tingir manualmente cada fotograma.

Esses filmes de Guy Blaché, datados de 1900, estiveram entre os primeiros a incorporar cores. Seus aperfeiçoamentos foram tamanhos que, em 17 de junho de 1911, uma edição do The Moving Picture News destacou que a então nova Solax Company não apenas estava entre as primeiras a produzir filmes inteiramente colorizados, como também o tingimento e a tonalização “conseguiram acrescentar um embelezamento que recebeu grande admiração do setor”.

De maneira extraordinária, no começo dos anos 1900 ela incorporou tanto som quanto cor. Em um filme curto, por exemplo, Guy Blaché criou interesse visual com uma paleta suave aplicada laboriosamente à película à mão ou produzida por um processo experimental de projeção de duas cores. Também utilizou o Chronophone para sincronizar a imagem de um cantor que movia os lábios com a gravação da apresentação em disco.

“O cinema exerce um efeito sísmico sobre nosso vocabulário visual coletivo. Aqueles que criam a gramática dos filmes — como são iluminados, enquadrados, compostos, filmados e, de fato, coloridos — são grandes influenciadores da cultura visual.” Essa citação se refere a Natalie Kalmus, uma das diretoras de cor de O Mágico de Oz, cuja contribuição ao cinema ajudou a abrir caminho, como a estrada de tijolos amarelos, para a Era de Ouro de Hollywood. Certamente o mesmo poderia ser dito de Guy Blaché e Wood.

Tendo “todo mundo é inventivo” como princípio orientador, o Lemelson Center está comprometido em ampliar o conhecimento e celebrar a história de inventores de diferentes origens.